O ano era 1985. Eu tinha uns 11 anos, quando um amigo do prédio onde morava na Tijuca, Rio de Janeiro, me chamou para mostrar uma novidade incrível! O pai dele havia comprado um Apple 2+ com dois drives 5¼ e um monitor de fósforo verde. Ficamos a tarde toda jogando Norad, Aztec e Karateka. Depois daquela experiência, eu já sabia o que iria pedir de Natal para meus pais.

Naquele ano, “Papai Noel” me boicotou, até porque a situação financeira não era lá essas coisas e haviam outras prioridades na vida de meus pais. Na época, fiquei triste, por não ter ganho meu próprio computador. Mas no ano seguinte, meus pais me presentearam com um HotBit HB-8000, uma versão do MSX fabricada pela Sharp.
O Computador era supermoderno para a época, com 3 canais de som com 8 oitavas (era praticamente um tecladinho da Casio), 16 cores, incríveis 64kb de RAM e vídeo com 16 cores! Fiquei extremamente encantado quando ganhei o presente e comecei a explorar o computador. Ele vinha com dois livros: um manual de usuário e um manual de Basic, a linguagem de programação corrente no dispositivo.

Naquele tempo não existiam discos rígidos. A única forma de persistência de dados eram as fitas K7 de 60 ou 90 minutos (As de 120 minutos existiam, mas distorciam o som e sempre davam erro de leitura). Lembro que fiz alguns programinhas de perguntas e respostas para zoar com os amigos, mas o primeiro “programa” que fiz foi uma rotina tosca de ficar repetindo o meu nome na tela:

Um tempo depois, descobri a revista INPUT, editada pela Nova Cultural, que trazia matérias sobre os computadores da época, os ZX Spectrum, Apple 2, TRS-80, TRS-Color e MSX, entre outros que não lembro. Ela sempre trazia uns programas para as diversas plataformas. Lembro que ela lançou uma série de 4 ou 5 revistas com a programação de um simulador de voo para Basic de MSX. A cada fascículo saía um trecho do programa e ficava ansioso para sair o próximo número, louco para terminar o programa. Bem… o final foi frustrante, pois haviam diversos erros de sintaxe e nunca consegui fazer o “Avião” sequer ser executado.

O tempo passou, fiz alguns amigos que gostavam de jogos de computador e começamos a trocar alguns títulos. Levávamos as fitas e fazíamos cópias de um gravador para o outro. Na época, a Philips lançou um equipamento de som chamado Philips Double Sound Machine. Era o Graal para copiar fitas, pois ele tinha dois decks e você não precisava plugar um gravador no outro com fios, deixando a gravação mais limpa. Um tempo depois apareceram os drives de 5¼ com interface Epcom(Sharp), DDX e MicroSol, que facilitaram o processo de persistência.

Passava horas jogando Yie Ar Kung-Fu, Road Fighter, Knightmare, Gun Fright, Knight Lore, Dungeon Master, entre outros títulos. Tinha tantos jogos que depois de um tempo fiz amizade com duas Soft Houses no Rio de Janeiro: A Rio Soft, que ficava na Praça Sães Pena, no coração da Tijuca e a Takeru Informática, que ficava no centro da cidade. Começamos a trocar jogos com eles e, depois de um tempo, tínhamos acesso livre ao acervo deles e vice-versa.

Como não havia Internet naquele tempo, o Brasil tinha em média um atraso de 4 anos de informação das novidades do exterior. Toda a informação que conseguíamos obter de tecnologia vinha do boca a boca e muitas lendas e mitos eram criados.
Lembro que um amigo meu havia ouvido falar de um computador que tinha 16 milhões de cores, com som incomparável e que vinha com um processador que detectava vírus, analisava e criava uma vacina! (Os vírus já começavam a atingir os PCs, pois estes eram usados como terminais em grandes empresas).
Este amigo meu estava falando do Commodore Amiga, que realmente tinha mais cores que os computadores da época, pois tinha 32 cores com 4096 tonalidades, som estéreo com 4 canais, drive interno de 3½ e tinha um sistema operacional multitarefa, o que na época era algo inimaginável. O sistema operacional já era iconográfico, e não era necessário digitar comandos para executar nada. Isto pode parecer corriqueiro hoje, mas tudo era feito através do mouse o que causou uma grande mudança nas interfaces naquele período.

Um amigo meu estava morando nos Estados Unidos e estava voltando para o Brasil. Não pensei duas vezes: pedi para ele trazer um Amiga 500. Realmente o computador era revolucionário para a época, pois agora podíamos jogar os jogos dos Fliperamas em casa! Lembro de jogar por horas clássicos como Altered Beast, Renegade, IK+, Outrun, Arkanoid, Double Dragon entre outros. Graças ao Amiga, comecei a aprender inglês por conta própria, devido aos Adventures estilo point and click, como Indiana Jones and the Last Crusade, Zak Mc Kracken and the Aliens Mindbenders, Beneath a Steel Sky e vários outros títulos do gênero, pois eles continham fala e texto em inglês. Lembro de muitas vezes ficar jogando com um dicionário de inglês à tira colo (Lembra que eu disse que não existia internet?).

Foi com o Amiga que também comecei a gostar mais dos simuladores de Voo. No MSX, eu já jogava clássicos como F-16 Fighting Falcon, Spitfire 40, North Sea Helicopter e Dam Busters (que nunca consegui completar o objetivo), mas por terem limitações gráficas, eles não conseguiam dar a imersão necessária que uma simulação requer. O primeiro simulador de voo que vi no Amiga foi o F/A 18 – Interceptor. Ficava horas jogando ele, pois já trazia um realismo nunca antes experimentados para os computadores pessoais. Os gráficos do jogo somente eram vistos em simuladores de voo de grandes companhias aéreas.

O Amiga era tão avançado na sua época que diversas empresas utilizaram ele para fazer animações 3D e vinhetas de programas. Existia uma expansão chamada Video Toaster, que transformava o Amiga 2000 em uma ilha de edição gráfica. No Brasil, diversos programas de televisão utilizaram seus recursos para fazer a geração de caracteres e vinhetas de transições. Um dos programas mais famosos da época que usava o Amiga era o Comando da Madrugada do saudoso Goulart de Andrade, que inclusive exibia um Amiga 2000 compondo o cenário do programa. A Globo também chegou a utilizar o Amiga 2000 para criar a animação em 3D da abertura da novela Meu Bem, Meu Mal, provavelmente com o auxílio do programa Lightwave 3D (especulação).

No Brasil, o Amiga foi comercializado pela PCI Componentes da Amazônia Ltda., que trouxe as versões A600, A1200 e o Amiga CD32, que era uma plataforma exclusiva para jogos. Apesar de não ter sido tão conhecido no Brasil, o Amiga foi o precursor de muitos dos recursos utilizados nos atuais sistemas operacionais, tais como a interface gráfica e arquitetura de chips gráficos trabalhando em paralelo ao processador, que permitia alto desempenho nas aplicações multimídia, servindo de inspiração para as atuais placas de vídeos aceleradas do PC.
Devido à arquitetura fechada e diversas campanhas de marketing mal sucedidas, a Commodore foi perdendo terreno para os computadores pessoais (PCs), que foram avançando sua tecnologia e permitiram que diversas empresas pudessem desenvolver periféricos, o que nos leva ao cenário atual dos computadores.
Bem, o tempo passou, o Amiga foi ficando Obsoleto a ponto de ser emulado pelos PCs atuais. Vendi meu Amiga 500 e meu Amiga 1200 para um colecionador, comprei um PC e até hoje vou fazendo upgrades para manter meu computador sempre atualizado.
Bons tempos!